Especialistas pedem análise às causas de morte indicadas nos certificados de óbito
Os responsáveis do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias (ONDR) alertam para a necessidade de estudar a veracidade dos dados dos certificados de óbito, lembrando que quase metade das pessoas morrem fora do hospital.

Em declarações à Lusa, o presidente da Federação Portuguesa do Pulmão (FPP), José Alves, recordou que a última análise deste género, que apenas se focou na asma como causa de morte, data de 1992 e concluiu que, nas faixas etárias mais elevadas, pouco mais de 10% dos certificados de óbito estavam corretos.
Segundo explicou, este trabalho, que elaborou no âmbito de uma tese de doutoramento, concluiu que, até aos 35 anos, estavam corretos 40% dos certificados de óbito que indicavam a asma como causa de morte, dos 40 aos 75 anos apenas estavam certos 18% e, a partir dos 75 anos de idade, este valor era de 12%.
“A veracidade era esta. Depois, complementando esta história, de 91 para 92, a queda de mortalidade por asma foi de 30% e, a partir daí, tem descido sistematicamente até ter neste momento valores muito baixos”, explicou o especialista, justificando desta forma o facto de os dados de óbitos serem este ano apresentados de forma diferente do ONDR, uma vez que “muitas causas de morte que entram nos dados das doenças respiratórias podem não estar corretas”.
Para que os dados da causa de morte sejam o mais próximos possível da realidade, José Alves sugere que se possam aplicar métodos de auditoria.
“Há pessoas que são internadas por pneumonia e morrem de enfarte do miocárdio. Por isso, a única coisa que sabemos é porque foram internadas e porque morreram”, afirmou o responsável, acrescentando: “um dos casos que encontrei no estudo que fiz, que supostamente tinha morrido por asma, afinal morreu num acidente de mota”.
O ONDR 2024, uma iniciava da FPP, analisa os principais indicadores da saúde respiratória em Portugal, focando-se nos internamentos e mortalidade hospitalares e na evolução das principais doenças respiratórias e usou dados fornecidos pela Administração Central dos Serviços de Saúde (ACSS).
Além de algumas patologias individuais, analisou três grandes grupos de doentes: todos os que foram internados, independente da causa; os que foram internados por uma qualquer causa mas que tinham como diagnóstico secundário, na sua história clínica, uma doença respiratória, e os doentes que tinham como causa de internamento a doença respiratória.
Todos estes grupos foram divididos em duas partes: com e sem necessidade de ventilação. Para ser possível comparar estes grupos, foi usado o número de óbitos por cada 100 internamentos.
As conclusões apontam para uma “redução acentuada” dos internamentos em 2020 devido à pandemia de covid-19, com uma recuperação parcial nos anos seguintes.
A mortalidade hospitalar atingiu o seu pico em 2021 (71.305 óbitos) — quando alcançou 107,8% dos valores de 2018 (64.034 óbitos) – diminuindo posteriormente. Em 2023 registaram-se 93,9% (60.990) dos óbitos reportados em 2018.
“As atitudes tomadas para conter a pandemia (…) continuaram a ter resultados positivos mesmo depois do fim da pandemia”, refere o relatório.
O documento indica que à diminuição dos óbitos em valor absoluto “não corresponde uma diminuição percentual” porque a queda dos internamentos foi maior do que a dos óbitos – 9% nos internamentos e 6,1% nas mortes.
“Aparentemente é mais fácil mudar as regras de internamento do que a gravidade das doenças”, sublinha.
O relatório do ONDR alerta também para o facto de, em 2023, cerca de metade dos óbitos em Portugal terem ocorrido fora das unidades de saúde, “levantando questões sobre a fiabilidade das causas de morte registadas”.
“Aconselha-se um estudo da veracidade das certidões de óbito semelhante ao executado em 1992” refere o documento.
SO // ZO
By Impala News / Lusa
Siga a Impala no Instagram