Chefe do Shin Bet diz que Netanyahu lhe pediu ajuda para adiar julgamento

O diretor do Shin Bet (serviços secretos internos israelitas) revelou hoje que o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, lhe pediu que elaborasse um parecer para espaçar as suas comparências no tribunal que está a julgá-lo por corrupção.

Chefe do Shin Bet diz que Netanyahu lhe pediu ajuda para adiar julgamento

Ronen Bar fez esta revelação numa carta que escreveu ao Supremo Tribunal de Israel para contestar a sua demissão pelo Governo e que foi hoje divulgada pela procuradora-geral da República, Gali Baharav-Miara.

“Durante o mês de novembro de 2024, o primeiro-ministro pediu-me, em várias ocasiões, que emitisse um parecer sobre segurança afirmando que as condições de segurança [no país] não permitiam a continuação do seu depoimento no seu processo penal”, escreveu Ronen Bar.

Em visita oficial à Hungria, Netanyahu já reagiu, afirmando que as acusações do diretor do Shin Bet são uma “teia de mentiras”.

“Essa declaração é uma teia de mentiras”, declarou o primeiro-ministro, citado num comunicado do seu gabinete.

“O primeiro-ministro discutiu com o diretor do Shin Bet como tornar possível o seu testemunho em tribunal, dadas as ameaças de mísseis contra Israel e contra ele em particular. A conversa incidiu sobre o local do testemunho e não sobre a sua realização ou não”, acrescentou o gabinete do chefe do executivo israelita no comunicado.

Depois de inúmeras tentativas para adiar a sua comparência em tribunal, Netanyahu acabou por ser judicialmente obrigado a depor no processo a decorrer contra ele mesmo por várias acusações de corrupção.

As audiências têm-se realizado todas as semanas, desde dezembro, numa sala de audiências segura numa cave em Telavive.

Horas antes, a procuradora-geral anunciou ter concluído que a decisão governamental de demitir o chefe do Shin Bet padecia de um vício fundamental, um conflito de interesses do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu.

“A decisão de pôr termo ao mandato do chefe do Shin Bet é fundamentalmente viciada, manchada por um conflito de interesses pessoais por parte do primeiro-ministro, devido às investigações criminais que envolvem pessoas que lhe são próximas, e conduzirá” à politização do cargo, declarou hoje Gali Baharav-Miara num comunicado.

A procuradora-geral divulgou na nota de imprensa o parecer pormenorizado que transmitiu ao Supremo Tribunal de Israel, no qual defende as suas conclusões sobre este caso.

O Supremo deverá realizar a 08 de abril uma audiência para analisar os recursos interpostos, nomeadamente pela oposição e pela própria Baharav-Miara, contra a decisão do Governo, de 21 de março, de demitir o diretor da Agência de Segurança Interna (Shin Bet), Ronen Bar, depois de Netanyahu ter declarado que já não podia ter qualquer confiança nele, nem a nível profissional nem pessoal.

Netanyahu condena, em especial, Ronen Bar por o seu departamento não ter conseguido prever ou impedir o ataque de uma violência sem precedentes do movimento islamita palestiniano Hamas a 07 de outubro de 2023 em território israelita, que desencadeou, horas depois, a guerra ainda em curso na Faixa de Gaza.

Mas a oposição israelita e uma organização não-governamental (ONG) consideram que a decisão do Governo foi sobretudo ditada pelo desejo de Netanyahu de se livrar do chefe do departamento que conduziu a investigação no âmbito da qual dois familiares seus estão detidos, suspeitos de terem recebido subornos do Qatar.

O chefe do executivo israelita acusou hoje não só Ronen Bar mas também a procuradora-geral, cuja demissão também pretende, de serem eles os culpados de um “conflito de interesses”.

O anúncio, a 21 de março, da demissão de Ronen Bar, na sequência de uma votação governamental, e, em menor escala, o processo de destituição de Gali Baharav-Miara em seguida iniciado pelo Governo reacenderam os protestos contra o executivo.

Além dos manifestantes antiguerra, solidários com os reféns israelitas em Gaza, que exigem um cessar-fogo – a única solução que, na sua opinião, permitirá recuperar o maior número possível de sequestrados com vida, numa altura em que Netanyahu e os seus aliados de extrema-direita defendem o aumento da pressão militar -, há também milhares de pessoas que condenam a deriva autoritária do Governo liderado por Netanyahu.

ANC // SCA

By Impala News / Lusa

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