Guerra em Gaza desafia “a decência, a humanidade e a lei”
A guerra em Gaza tornou-se numa “armadilha mortal” que “desafia a decência, a humanidade e a lei”, denunciou hoje o chefe de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA) no Território Palestiniano, lamentado a “desumanização” dos civis do enclave.

Num ‘briefing’ aos jornalistas feito a partir de Gaza, Jonathan Whittall não poupou nas críticas à forma como Israel está a conduzir a guerra no enclave palestiniano, descrevendo ao pormenor uma missão que coordenou recentemente em Rafah em que descobriu uma vala comum com 15 profissionais de saúde abatidos pelas forças israelitas.
“Decidi não medir as palavras (…) Foi chocante vivenciar isto. Eram profissionais da área médica (…) ainda fardados e de luvas. Foram mortos enquanto tentavam salvar vidas. Estavam a ser enviados para Rafah enquanto as forças israelitas avançavam na área. As ambulâncias foram atingidas uma a uma ao entrarem em Rafah. As valas onde os encontrámos estavam marcadas pelas luzes de emergência de uma das ambulâncias”, contou Whittall, no ‘briefing’, acompanhado pela Lusa.
“Todos foram esmagados pelas forças israelitas. Na zona onde encontrámos esta vala comum, as ambulâncias, o camião dos bombeiros e um veículo da ONU ficaram todos destruídos. Os corpos dos mortos foram enterrados na vala”, acrescentou.
As forças israelitas admitiram que dispararam contra ambulâncias na Faixa de Gaza em 23 de março, depois de considerarem os veículos suspeitos, enquanto o Hamas considerou este ataque um “crime de guerra”.
O exército israelita admitiu hoje que cobriu os corpos dos 15 paramédicos e socorristas que morreram nesse ataque “com pano e terra”, alegando que o fizeram acreditando que o resgate iria demorar.
“O que está a acontecer aqui desafia a decência, desafia a humanidade, desafia a lei. É realmente uma guerra sem limites. E este caso dos nossos colegas que foram mortos enquanto tentavam salvar vidas é um horror numa série interminável das últimas duas semanas”, afirmou o chefe da OCHA na Palestina.
Duas horas antes de Jonathan Whittall falar aos jornalistas, a ONU denunciava perante o Conselho de Segurança da ONU que os trabalhadores humanitários estão a ser mortos “em números sem precedentes”, frisando que 2024 foi mesmo o pior ano de que há registo, com 377 mortes em 20 países.
Apenas em Gaza, 408 mortes de trabalhadores humanitários foram registadas desde outubro de 2023, tornando a Faixa de Gaza “no lugar mais perigoso de sempre” para esses funcionários, segundo as Nações Unidas.
No encontro de hoje, a ONU exigiu respostas e pediu justiça.
Além do impacto desta guerra nos médicos e trabalhadores humanitários, Jonathan Whittall focou-se no impacto nos civis, que foram novamente subjugados a ordens de deslocação forçada desde que o cessar-fogo falhou, há duas semanas.
Só nos últimos dois dias, cerca de 100.000 pessoas foram deslocadas de Rafah, muitas delas fugindo de ataques, disse, acrescentando que viu “pessoas a correr debaixo de fogo e a serem baleadas nas costas”.
“Em nenhum lugar, ninguém está seguro em Gaza. Os meus colegas dizem-me que só querem morrer com as suas famílias. O seu pior medo é sobreviver sozinho. De dia e de noite (…) ouvimos ataques aéreos a moldar Gaza. Bombas caem sem parar. Os hospitais estão lotados com vítimas”, reforçou.
“É um ciclo interminável de sangue, dor, morte. Gaza tornou-se numa armadilha mortal. Não podemos aceitar, enquanto trabalhadores humanitários, que os civis palestinianos sejam desumanizados ao ponto de serem de alguma forma indignos de sobrevivência”, insistiu o representante da OCHA.
Israel declarou guerra ao movimento palestiniano Hamas, que controla a Faixa de Gaza desde 2007, na sequência de um ataque surpresa, em 07 de outubro de 2023, contra o sul de Israel e no qual morreram 1.200 pessoas e duas centenas foram feitas reféns.
As forças israelitas impuseram um cerco total ao enclave palestiniano e o conflito já causou mais de 50 mil mortos em Gaza, de acordo com números das autoridades locais.
O Hamas é classificado como um movimento terrorista pela União Europeia e Estados Unidos, entre outros.
MYMM (AFE) // JH
By Impala News / Lusa
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